As Campanhas de Vacinações no Guatapará - Barão de Cotegipe

 


Nos anos finais da década de 1960, Guatapará destacava-se como a localidade mais carente de Barão de Cotegipe, situada à distância considerável da sede do município. Embora abrigasse apenas poucas famílias, a presença de numerosas crianças tornava imperativa a realização de campanhas de vacinação. Na ausência de um posto de saúde em Barão de Cotegipe naquela época, uma tarde de sábado testemunhou a iniciativa solidária de um grupo, composto por mim e algumas irmãs do hospital, que se uniram em um mutirão para administrar vacinas de forma gratuita a essa população marginalizada. A partir desse momento, comprometemo-nos a realizar anualmente essa campanha, estendendo a mão solidária à comunidade de Guatapará. Persistimos nesse esforço constante até que, alguns anos mais tarde, testemunhamos a instalação do tão aguardado posto de saúde na cidade de Barão de Cotegipe. Essa conquista não se deu sem considerável empenho e uma árdua batalha política junto ao governo estadual em Porto Alegre. Foi necessário um esforço incansável, marcado por negociações estratégicas, articulações políticas e uma firme defesa da necessidade vital desse posto de saúde para a comunidade de Barão de Cotegipe. Superando obstáculos e desafios, nosso compromisso persistente resultou na realização desse projeto, representando não apenas um marco na infraestrutura de saúde local, mas também uma prova tangível do poder da mobilização comunitária e da advocacia política em prol do bem comum. O Porto de Saúde representou não apenas o progresso em termos de acesso à saúde preventiva, mas também uma mudança significativa na qualidade de vida para os habitantes, encerrando a necessidade de nossas intervenções regulares e evidenciando o impacto positivo de iniciativas dedicadas à promoção do bem-estar comunitário. Foi durante os primeiros dias no hospital que percebi a alarmante incidência de casos de difteria, tétano e coqueluche originados precisamente de Guatapará. Motivado por essa constatação, decidi envolver o hospital nessa nobre empreitada, que realizávamos nas tardes de sábado. A obtenção das vacinas necessárias foi possível graças à colaboração da delegacia de saúde de Erechim, cujo diretor elogiou e apoiou entusiasticamente nossa iniciativa em prol da saúde da comunidade. Ao seguir pela estrada em direção a São Valentim, ao alcançar o "Embu", a orientação era dobrar à direita na via que conduz a Itatiba do Sul. No ponto próximo à localidade de Wawruck, quase em frente à grande casa de comércio dos amigos Flório Rigotti e Casimira, virava-se à esquerda, revelando uma estreita e sinuosa estrada, em sua maioria em declive, que nos guiava até as proximidades da pequena comunidade, composta por algumas casas. Após percorrer essa estrada delicada, com a tração nas quatro rodas ativada na quase nova rural Willys do hospital, atravessamos "potreiros" sem trilhas definidas, contornando tocos de árvores cortadas há tempos, superando íngremes lombadas e conduzindo entre algumas vacas magras, diretamente sobre a grama do pasto ralo. A cada momento, um membro do grupo precisava descer para abrir e, posteriormente, fechar algumas porteiras que se interpunham em propriedades particulares ao longo do caminho. Este trajeto desafiador culminava em uma experiência que exigia habilidade e determinação para alcançar o destino desejado. Ao chegarmos ao povoado, iniciamos prontamente a aplicação das vacinas que havíamos trazido, seguindo um calendário cuidadosamente planejado em colaboração com a professora da única escola local. O desafio era considerável, dada a quantidade significativa de crianças que necessitavam ser vacinadas, mas, felizmente, concluímos o trabalho antes do previsto, pois todos já aguardavam ansiosos na pequena escola. Alguns membros do grupo aproveitaram a oportunidade para atravessar para o outro lado do rio, utilizando uma "pinguela" precária e perigosa, suspensa por fios de aço, deixando a camionete para trás. Era imperativo estender a vacinação também às crianças que residiam naquela margem do rio, já pertencente ao município vizinho de São Valentim. Guatapará, embora não me lembre se fosse oficialmente um distrito — o que parece improvável devido às dificuldades de acesso —, era um agrupamento de modestas habitações, todas muito simples, ao redor de uma escola e de uma pequena capela, ambas construídas em madeira e desprovidas de pintura, assim como as moradias circundantes. Os habitantes eram pequenos agricultores, enfrentando inúmeras dificuldades para manter uma vida digna. Sua produção limitava-se à subsistência, e o pouco que conseguiam extrair daquele terreno pedregoso destinava-se exclusivamente às despesas cotidianas, geralmente liquidadas na casa de comércio do povoado de Wawruck.



A Região do Alto Uruguai na Década de 1970



Cheguei a Barão de Cotegipe logo após o meio-dia, em 30 de setembro de 1969, depois de uma extenuante jornada de dezesseis horas. A impossibilidade de repousar no antigo ônibus convencional, partindo de Curitiba, no Paraná, minha terra natal, tornou a viagem ainda mais desgastante. Minha missão era assumir como médico no Hospital São Vicente de Paulo, sucedendo um colega notavelmente mais velho que havia deixado o cargo naquela mesma manhã, após mais de 30 anos de dedicação ao hospital.
Barão de Cotegipe, um modesto município situado na região do Alto Uruguai, abrangia cerca de trezentos quilômetros quadrados e contava com uma população aproximada de doze mil habitantes naquela época. O município, emancipado de Erechim em 1964, outrora principal distrito denominado Floresta, revelava-se como uma comunidade ainda em formação.
Desde a minha chegada e, ainda mais enfaticamente durante a primeira metade da década seguinte, testemunhávamos semanalmente a partida constante de numerosas famílias de jovens agricultores, por vezes acompanhados pelos genitores, que se aventuravam para uma fronteira recém-aberta no Mato Grosso do Sul. A falta de venda resultava no fechamento de muitas residências, especialmente no interior do município, deixadas para trás por proprietários ávidos por novos horizontes. Essa cena repetia-se em todos os outros municípios do Alto Uruguai. Uma época de recessão permeava a região, onde o descontentamento era generalizado devido aos preços mínimos pagos pelos produtos agrícolas, e a cooperativa ainda não tinha atingido a robustez que caracterizaria as décadas subsequentes.
A cultura principal na região era o trigo, sendo que Erechim e seus arredores já haviam sido a capital brasileira desse cereal em anos anteriores. Entretanto, esse produto estava gradativamente perdendo espaço devido às importações da Argentina, que reduziam consideravelmente os preços. A cultura da soja, naquela época, era praticamente desconhecida e ainda não tinha sido introduzida na região. Dessa forma, os agricultores dependiam quase que exclusivamente do milho e da criação de suínos para garantir sua subsistência. No entanto, mesmo em anos de boa safra, o milho não atingia preços atrativos, desmotivando cada vez mais os agricultores, que sonhavam em migrar para o Mato Grosso.
A virada na situação ocorreu com a introdução da cultura da soja, que se tornou a redentora da região, desacelerando significativamente o êxodo migratório. Com ela, a cooperativa deu um salto expressivo e, em poucos anos, tornou-se uma das maiores do país. Os programas integrados da cooperativa na criação de suínos, frangos e, posteriormente, com o leite, transformaram a região em uma destacada produtora nacional de alimentos, e os sinais de progresso eram visíveis por toda parte.
Para chegar a Erechim, partindo de Curitiba, era necessário realizar uma viagem até Passo Fundo. Pela BR116, seguimos até Vacaria e, dali, pela RS285, passamos por Lagoa Vermelha. Em Passo Fundo, fazíamos a troca de ônibus e, por estradas de chão esburacadas e poeirentas, em um ônibus pinga-pinga, alcançávamos Erechim, atravessando diversos municípios, como Lagoa Vermelha, Tapejara, Charrua, Estação e Getúlio Vargas. A qualidade da estrada era péssima, e nos dias chuvosos, utilizavam serragem e aparas de madeira, conhecidas na região como maravalhas, no chão do ônibus para minimizar os impactos da grande quantidade de lama deixada pelos passageiros. Nos dias quentes, a poeira insistia em invadir o veículo sempre que a porta ou alguma janela era aberta, durante as frequentes paradas para embarque e desembarque de passageiros. Era comum transportar animais, como galinhas e grandes sacos, juntamente com os passageiros, a maioria composta por agricultores. Somente muitos anos depois, com a abertura da estrada BR153 nos trechos Passo Fundo-Erechim e, posteriormente, Erechim-Concórdia, é que a situação melhorou significativamente.
Continuando, uma vez chegando a Erechim, ainda restavam mais quinze quilômetros de estrada esburacada e poeirenta para finalmente alcançarmos Barão de Cotegipe. Caso não houvesse alguém nos aguardando na rodoviária de Erechim, éramos obrigados a procurar outro ônibus. Dado que em Barão de Cotegipe ainda não existia serviço de táxi, a única opção para percorrer o trajeto da rodoviária ao hospital era a pé ou tentar conseguir uma carona.
Em Cotegipe, assim como nos demais pequenos municípios vizinhos, as ruas não eram pavimentadas, e a poeira e a lama nos dias de chuva tornavam-se um tormento para os moradores e transeuntes. A avenida principal em Cotegipe era margeada por um pequeno riacho que, diante da rodoviária e da igreja, recebia dois afluentes, contornando juntos a Matriz. Em períodos de chuva intensa, esses riachos por vezes transbordavam, fazendo com que a água extravasasse de sua caixa de pedras, invadindo a cidade.
Para acessar um voo, precisávamos percorrer um longo caminho, sempre em estradas de cascalho, até Concórdia, em Santa Catarina, atravessando o rio Uruguai por meio de uma balsa, situada no município de Marcelino Ramos. Apesar de Erechim contar com um aeroporto bem equipado, a crise já o havia deixado sem movimento. Algumas décadas atrás, esse aeroporto fora um dos mais movimentados do interior do Rio Grande do Sul, recebendo vários voos diários de duas ou três companhias comerciais de aviação civil.
Em Erechim, naquela época, as ruas não ostentavam o asfalto moderno. Todas as vias e avenidas da cidade eram revestidas por pedras irregulares, que, além de causarem um alarido considerável na passagem dos veículos, impunham um notável desgaste aos pneus. O cenário urbano era marcado pelo som característico das pedras sendo percorridas pelos automóveis, tornando-se uma trilha sonora peculiar daquele tempo.
A comunicação telefônica na época também sofria com desafios consideráveis. Em Cotegipe, uma pequena central telefônica estava instalada em uma modesta casa de madeira, situada ao lado da igreja. Neste local, uma única telefonista desempenhava a tarefa árdua de atender os escassos telefones existentes na cidade. Ela compartilhava a moradia com sua família e era a responsável por todas as operações da central. Os telefonemas interurbanos para cidades como Curitiba ou Porto Alegre eram quase impossíveis, demandando solicitações de ligação com muitas horas de antecedência. Em tempestades com ventos ou raios, a comunicação ficava prejudicada até que os funcionários da central de Erechim percorressem toda a extensão da linha para localizar o ponto de rompimento.
Para realizar uma chamada para Erechim, uma vez na central, a telefonista precisava executar vários procedimentos, incluindo um método curioso: girar rapidamente uma pequena manivela acoplada a um telefone fixado na parede. Em Erechim, o processo se assemelhava, porém em uma escala um pouco maior. Efetuar uma simples chamada telefônica para Curitiba implicava esperar várias horas após a solicitação no balcão. Muitas vezes, a comunicação falhava devido ao mau tempo, quando não havia linha disponível. Nessa época, não existiam telefones públicos, e as centrais telefônicas também não operavam durante as 24 horas do dia. Como o único médico da cidade, não podia me ausentar por muito tempo devido à grande quantidade de casos urgentes que emergiam a todo momento. Eu me deslocava até Erechim por algumas horas, uma vez por semana, sempre no período da tarde. Quando o hospital necessitava de contato urgente comigo, recorria às emissoras de rádio, muito populares naquela época, e alguém da cidade sempre conseguia me localizar, avisando que eu estava sendo procurado. Um aspecto curioso, e que dava o que falar, era o sistema que o hospital empregava durante as noites para indicar que eu precisava passar lá antes de seguir para casa. Acendiam uma indiscreta luz vermelha no topo do prédio, visível da estrada quando eu descia o morro vindo de Erechim de carro. Apesar de já ter explicado em diversas ocasiões às irmãs o outro significado dessa luz, por questões de praticidade, elas não levaram isso em consideração e continuaram usando o sistema já adotado pelo médico que me antecedeu.
Nesse período em Barão de Cotegipe, não havia sistema de água tratada; a água utilizada para todos os fins provinha de poços, resultando em inúmeras doenças na população devido à contaminação do lençol freático. Estávamos verdadeiramente isolados do restante do mundo. Erechim, por ser a maior cidade e oferecer serviços que os demais municípios não possuíam, como bancos, silos de armazenagem de grãos e um comércio robusto e competitivo, era e ainda é considerada uma espécie de capital na região Alto Uruguai. 
Diariamente, várias centenas de pessoas, a maioria delas agricultores de Cotegipe e dos municípios vizinhos, convergiam para Erechim, dinamizando a economia local. Os bancos e a cooperativa eram os pontos mais procurados por esses visitantes. A economia do município de Barão de Cotegipe era fundamentada quase integralmente na agricultura e na pecuária. Além disso, havia algumas pequenas fábricas de móveis, duas ou três ferrarias, dois moinhos de grãos e uma modesta fábrica de facas, balanças e instrumentos agrícolas. A única indústria de porte médio instalada era uma ervateira, que proporcionava emprego para cerca de três dezenas de trabalhadores. Esse conjunto de atividades constituía o alicerce econômico local, contribuindo para a sustentabilidade e o desenvolvimento da comunidade.



Os Costumes e o Linguajar dos Gaúchos

 



O que mais estranhei na minha transferência de Curitiba para Barão de Cotegipe, foram sem dúvida os os costumes e o linguajar que encontrei aqui no Rio Grande do Sul. O modo de falar dos gaúchos era muito diferente de nós curitibanos e eu ainda não conhecia. Lembro que a Curitiba daquela época, e estamos falando do ano de 1969, já tinha uma população de quase quinhentos mil habitantes e a pequena Barão Cotegipe somente uns doze mil, distribuídos em todo município, sendo que na sede eram menos de dez por cento desse total. Quando cheguei na cidade ainda fazia frio e já estávamos no fim do mês de Setembro de 1969. Chovia muito e o minuano teimava em me acordar durante as noites, quando, com força, tentava passar pelas frestas da janela do meu pequeno quarto. Encontrei uma região muito bonita, com um povo acolhedor, mas, muito atrasada em diversos aspectos. Estávamos vivendo em pleno regime militar onde os acontecimentos políticos se sucediam com bastante rapidez, mas, em Cotegipe o tempo parecia não passar. Tudo era muito silencioso, calmo e feito sem pressa, até parecia que eu estava morando em uma grande fazenda. As poucas notícias que acabavam chegando vinham com dois ou até mais dias de atraso, isso quando o jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, o mais importante da época, conseguia ser entregue na cidade. As rádios brasileiras tinham bastante dificuldades para chegar até nós, mesmo a Guaíba. Somente à noite podiam ser melhor sintonizadas, sem aquela interferência insuportável ouvidas durante o dia. A televisão ainda iria demorar mais alguns anos para chegar nestas bandas. Mesmo a Rádio Guaíba  de Porto Alegre, era difícil de sintonizar. As emissoras de rádio mais potentes eram as argentinas e também alguma uruguaia, mas, infelizmente, com praticamente nenhuma notícia sobre o Brasil. No mês anterior a minha chegada, para regularizar meu registro junto ao Conselho de Medicina do RS, eu tinha ido pela primeira vez à Porto Alegre e a pujança daquela capital me impressionou positivamente. O movimento que encontrei lá era bem maior que em Curitiba da época. Era uma cidade muito grande, com uma população maior. A quantidade de caminhões e o número de indústrias localizadas entre Canoas e Porto Alegre, itinerário por onde passava o ônibus interestadual, também era muito grande e chamou muito a minha atenção. O município de Barão de Cotegipe foi colonizado principalmente por emigrantes europeus, especialmente italianos, poloneses e alemães. Em muito menor proporção por pessoas de inúmeras outras etnias, como russos, ucranianos, búlgaros e judeus. Cada uma delas deixou a sua marca característica, concorrendo neste caldo multiétnico, no uso e nos costumes, na fala, na cultura e na culinária local e gaúcha. Nos dois ou três primeiros meses na nova terra eu tive alguma dificuldade para compreender certas palavras e expressões usadas pelos meus clientes quando chegavam até o hospital para consulta médica. Precisei me esforçar, pois, nem sempre se podia dizer para eles que o “doutor não os estava entendendo”. As pessoas mais idosas eram na maioria descendentes de imigrantes e não falavam o português. Muitas delas eram nascidas na Europa, outros já brasileiros de primeira ou segunda gerações, mas que tinham sido alfabetizados na língua de procedência e em casa não usavam o português. Simplesmente não sabiam falar português, somente algumas palavras. Que eu não entendesse estas línguas eles até compreendiam bem e, assim, sempre se faziam acompanhar por um filho ou uma filha para servirem de tradutores durante as consultas médicas. Mas, não serem entendidos quando estavam falando o seu "português" não era admissível. A língua falada no Rio Grande do Sul era uma mistura de português, espanhol (castelhano) e inúmeras outras palavras características das etnias que ali se fixaram, sobretudo o talian, uma língua que não é um dialeto italiano, criada no meio das comunidades de imigrantes italianos nas antigas colônias da Serra Gaúcha. Como os imigrantes italianos eram majoritariamente de origem das regiões do Vêneto e Lombardia, eram as palavras de seus dialetos os que mais influenciaram no falar dos habitantes de Cotegipe. Eu, nascido em Curitiba, apesar de descendente de italianos não sabia praticamente nada da língua, mas, rapidamente fui aprendendo de tanto ouvir. Consegui também aprender bastante do polonês, o suficiente para entender um pouco melhor os meus clientes nas consultas. Muitas vezes os mais velhos até perguntavam, com indisfarçável satisfação, se eu era descendente de poloneses. Palavras corriqueiras do dia a dia eram bem diferentes do que eu conhecia. Em poucos meses aprendi rapidamente, não sem dificuldade. O uso sistemático de tomar chimarrão, de sempre receber as visitas com uma cuia nas mãos, também me deixou impressionado. Em Curitiba também o uso do chimarrão era muito difuso, mas, muito menos frequente que aqui do Rio Grande do Sul e sempre reservado somente para algumas situações, mais íntimas. A maneira de fazer o tradicional churrasco, usando somente o sal grosso como tempero, também foi uma das boas surpresas que encontrei. No Paraná e Santa Catarina a carne para o churrasco era quase sempre outro tipo de corte e ficava sempre mergulhada em uma salmoura com tempero antes de assar. Os homens descendentes de poloneses, aqueles mais velhos, a maioria imigrantes, quando vinham para uma consulta médica usavam a melhor roupa que tinham, geralmente, usavam uma camisa branca com um vistoso debrum colorido, sem gola e com uma fileira de dois ou três botões espaçados. Um terno escuro completava a "fatiota".



Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS


Um Inesperado mas Agradável Reencontro

 




Numa tarde no consultório, enquanto dedicava-me ao atendimento dos meus pacientes, deparei-me com uma situação de urgência que acabara de chegar do Povoado Wavruck, uma pequena localidade do município de Barão de Cotegipe, na estrada para Itatiba do Sul. O motorista, já meu conhecido, aguardava ansiosamente na entrada do hospital. Tratava-se do amigo Tomazzelli, que frequentemente prestava solidariedade, conduzindo seus vizinhos para atendimento médico em seu antigo caminhão, carinhosamente apelidado por mim de "tanque de guerra". Cumprimentou-me com seu característico sorriso largo e, imediatamente, informou que, desta vez, tratava-se de uma criança pequena gravemente queimada. Após acomodar todos na sala de exames, deparei-me com o pequeno paciente nos braços da mãe, cujos olhos lacrimejavam intensamente devido às dores insuportáveis que o afligiam. Era uma família de pequenos agricultores de origem polonesa. A mãe, visivelmente aflita, explicou que, ao preparar o almoço, seu filho Vitorio, de apenas quatro anos, puxou uma panela com água fervente do fogão. A criança foi atingida no peito, barriga, braços e pernas, resultando em várias queimaduras de primeiro e segundo graus que abrangiam aproximadamente 40% de sua superfície corporal. Durante o exame, observamos a presença de pasta de dente sobre as bolhas, erroneamente utilizada pelos agricultores como unguento, prática comum naquela época, especialmente em comunidades rurais. A dificuldade em remover a pasta agravava a dor durante a limpeza e desbridamento da ferida, revelando os desafios enfrentados devido a métodos inadequados de tratamento naquele contexto. Diante da extensão dos ferimentos, a significativa quantidade de bolhas e pele morta, e especialmente a tenra idade do pequeno Vitorio, decidimos realizar uma anestesia geral. Sua hospitalização estendeu-se por mais de 15 dias, pois demandava dois extensos curativos diários que não poderiam ser adequadamente administrados em casa. Recebeu alta completamente curado, porém carregando cicatrizes marcantes, especialmente no peito. Desde então, nunca mais o havia encontrado. Recentemente, em Erechim, onde resido, mais de 40 anos após esse atendimento, decidi realizar uma pintura de manutenção em minha casa. Para a tarefa, contratei um pintor recomendado pelas excelentes referências que recebi. Enquanto trabalhava, ele compartilhou que nasceu em Barão de Cotegipe, mas reside em Erechim há mais de 30 anos, desde que se mudou com a família. Ao perguntar se me conhecia, já que eu também havia morado e trabalhado lá, ele não se recordava de mim, mas prometeu consultar o pai, que morava próximo. No dia seguinte, com um sorriso no rosto, ele ergueu a camisa, revelando as marcantes cicatrizes no peito e na barriga provenientes da antiga queimadura, perguntando se agora eu o recordava. Ao compartilhar sua história, gradativamente fui lembrando daquele pequeno de olhos azuis, chorando assustado nos braços de sua mãe, lá no hospital de Cotegipe.

Um Leitão Recheado: Premio no Cinquilho em Barão de Cotegipe

  



O jogo de bocha cinquilho, ou somente cinquilho é dos mais antigos e tradicionais jogos campeiros do Rio Grande do Sul. Trazido por imigrantes se espalhou pelo estado e sempre marcava presença nas festas de capelas das cidades do interior gaúcho. Na virada da década de 1960, o jogo de bocha cinquilho, apesar de não desfrutar da mesma popularidade que nos anos anteriores, ainda resistia como uma tradição em algumas capelas de Barão de Cotegipe. Mesmo com sua presença mais discreta, o cinquilho continuava a ser uma das atrações em determinadas localidades.
Em um domingo típico, por volta das dez e meia da manhã, como parte de sua rotina costumeira, o cônego Pollon fez questão de me buscar no hospital para mais uma visita a uma comunidade do interior do município. Esses momentos, permeados pela simplicidade do jogo e pelas visitas às capelas, proporcionavam um elo entre o passado e o presente, preservando assim a rica herança cultural da região. Naquela ocasião, o motorista da caminhonete do padre era outro senhor, uma figura frequente nas viagens pastorais ao lado do cônego Pollon. Eu, recém-chegado a Cotegipe havia algumas semanas, ainda não havia tido a oportunidade de conhecê-lo.
A presença desse novo condutor adicionou um elemento de novidade à jornada, e eu aguardava com curiosidade as histórias que poderiam surgir durante o percurso rumo à comunidade do interior. A cada semana, essas experiências contribuíam para a construção do meu entendimento sobre a comunidade e suas tradições, revelando as nuances da vida naquela encantadora região do Rio Grande do Sul. O motorista da caminhonete naquele dia era Emílio De Rè, um respeitado comerciante e antigo morador da cidade. Sua residência ficava estrategicamente localizada na avenida principal, abrigando também seu estabelecimento comercial. Juntos, nós três chegamos ao local da missa, e a comunidade já aguardava ansiosamente a chegada do padre nas imediações da acolhedora capela. A presença de Emílio adicionou uma pitada de familiaridade e conexão local à nossa pequena comitiva, revelando a interconexão entre a vida cotidiana, o comércio local e a prática da fé naquela comunidade em particular. Curiosamente, a missa tardou um pouco para iniciar, proporcionando uma oportunidade única para mim e Emílio. Alguns membros da diretoria da capela nos desafiaram para uma partida rápida de cinquilho, oferecendo como prêmio um suculento leitão recheado ao vencedor. Para mim, aquela era uma novidade, já que nunca tinha ouvido falar desse jogo. Até então, minha experiência se limitava ao jogo de bochas tradicional, bastante difundido em Curitiba na época.
Enquanto aguardávamos o início da celebração, o convite para participar do cinquilho trouxe uma dose de animação e camaradagem ao ambiente, mostrando como as tradições locais se entrelaçavam com a vida cotidiana daquela comunidade. O apetitoso prêmio adicionou um toque de competição amigável ao evento, tornando-o memorável para todos os presentes. Após adquirirmos as fichas para participar, dirigimo-nos à cancha ao ar livre. O cinquilho, conforme me ensinaram, era jogado em duplas, com cada jogador lançando oito bolas no total, divididas em dois lances de quatro bolas. A dinâmica do jogo consistia em arremessar uma bola visando acertar uma base de madeira sólida e triangular, situada a vários metros de distância. O desafio principal era tentar retirar as quatro bolas estrategicamente acomodadas em cavidades na parte superior dessa base triangular de setenta e cinco centímetros de cada lado. Cada ângulo da base triangular abrigava uma bola grande, enquanto uma bola de tamanho menor ocupava o centro. Cada uma dessas bolas possuía um valor específico, e a pontuação era determinada pelo acerto e o valor das bolas derrubadas no decorrer do jogo. A dupla vencedora seria aquela que acumulasse o maior número de pontos ao final das rodadas. Essa descrição detalhada revela a complexidade e a habilidade necessárias para se destacar no cinquilho, transformando um simples passatempo em uma competição estratégica e 
envolvente.
Desde a primeira rodada, ficou evidente que o Emílio era verdadeiramente um especialista no jogo. Durante sua vez de jogar, ele alcançou a proeza de marcar todos os pontos possíveis, uma tarefa notoriamente difícil. Enquanto isso, mesmo como novato, tive a sorte de realizar uma pontuação considerável.
Surpreendentemente, na segunda rodada, Emílio repetiu sua notável façanha da primeira, conquistando mais uma vez a pontuação máxima. Sua habilidade e destreza no cinquilho eram notáveis, revelando excelente pontaria e um conhecimento profundo do jogo. 
Ao redor da cancha, formou-se um numeroso grupo de moradores, todos ávidos por apreciar as jogadas das duplas. O presidente da comunidade, que nos desafiara, viu-se em uma situação complicada: o desejado prêmio, que esperavam converter em fundos valiosos para a capela, havia sido "perdido" logo na primeira rodada. Tanto eu quanto Emílio percebemos rapidamente a delicadeza da situação e decidimos abrir mão do premio e prolongar a disputa pelo leitão até o final da festa, proporcionando assim a oportunidade de arrecadar mais fundos para a comunidade.
Até o momento de nosso retorno, por volta das 16horas, nenhuma outra dupla havia conseguido igualar os pontos que conquistamos, e parecia improvável que alguém o fizesse até o encerramento da festa. Diante desse cenário, a diretoria da capela, por decisão unânime, optou por encerrar a competição de cinquilho. Mesmo diante de nossos protestos, proclamaram nossa dupla como vencedora indiscutível do torneio. Com o Emílio radiante, retornamos para casa com o grandioso leitão recheado, símbolo da nossa conquista incontestável.

A Vingança do Padre


A Vingança do Padre

Quando desembarquei em Barão de Cotegipe, em 30 de setembro de 1969, encontrava-me no crepúsculo da década de 1960. Naquela época, era possível absorver dezenas de narrativas que remontavam aos tempos em que o município constituía apenas um distrito de Floresta. A atmosfera estava impregnada de memórias e relatos que traçavam a evolução da localidade desde seus primórdios, proporcionando uma imersão nostálgica nas histórias que moldaram a comunidade ao longo do tempo. Desfrutava particularmente de absorver essas narrativas, especialmente quando provenientes dos moradores mais antigos da região. As histórias que remetiam aos tempos idos exerciam um encanto especial sobre mim, tornando-se as minhas preferidas. Sempre que as demandas do trabalho permitiam, eu apreciava imensamente dedicar meu tempo a ouvir os relatos dos anciãos, pois através de suas experiências era possível vislumbrar uma compreensão mais profunda dos eventos contemporâneos. Estabelecer essa conexão entre o passado e o presente por meio das vivências compartilhadas pelos mais velhos enriquecia minha perspectiva e fortalecia os laços com a rica tradição local.
Entre essas narrativas, uma história recorrente capturava minha atenção, tendo sido compartilhada por diversas pessoas, todas apresentando detalhes semelhantes. A consistência desses relatos conferia à história uma aura de veracidade incontestável, como se estivéssemos diante de um testemunho genuíno dos eventos ocorridos há muitos anos, por volta das décadas de quarenta ou cinquenta. Nessa época remota, quando Barão de Cotegipe ainda respondia pelo nome de Floresta, sendo apenas um modesto distrito de Erechim, a trama se desenrolou, criando raízes profundas na história local. Essa narrativa comum, transmitida de geração em geração, servia como um elo fascinante entre o passado distante e o presente, consolidando-se como parte indissociável da identidade histórica da região.
Segundo os relatos dos moradores mais antigos, naquela época remota, a igreja matriz existente era construída em madeira, mas já se vislumbrava a possibilidade de erguer uma nova edificação feita de tijolos e pedras. Nesse contexto, destacava-se a figura de um padre visionário, de ascendência polonesa, que mais tarde se tornaria cônego, caracterizando-se como um líder ativo e empreendedor. Ele emergiu como a verdadeira força motriz por trás do desenvolvimento local, desempenhando um papel crucial na posterior emancipação política daquele distrito de Erechim, culminando na criação do município de Barão de Cotegipe. Nesse mesmo período, esse notável padre desempenhou um papel crucial na eletrificação da cidade, liderando a construção de uma barragem e uma usina elétrica. Sob sua orientação, centenas de paroquianos uniram esforços para concretizar esse empreendimento, localizado onde hoje se encontra o município de Jacutinga. Posteriormente, o padre, visionário e incansável, assumiu a liderança direta na construção de importantes infraestruturas, incluindo a nova e majestosa igreja matriz, o colégio das irmãs e um moderno hospital. Todas essas edificações, feitas de pedra e tijolos, destacavam-se como sólidas e inovadoras para a época.
Naquelas eras, o transporte era inteiramente dependente de mulas e cavalos. As pessoas se deslocavam de suas propriedades rurais utilizando cavalos ou mulas de montaria. Famílias mais prósperas possuíam cavalos individuais para cada membro, refletindo o status e a importância atribuídos a esses animais na vida cotidiana da comunidade. 
O fluxo constante de fiéis oriundos das capelas do interior para participar das missas dominicais na igreja matriz era expressivo, e a quantidade de animais amarrados ao redor do templo também impressionava. Muitas vezes, esses fiéis vinham de localidades distantes da sede do município, dedicando horas de viagem para marcar presença nessas celebrações.
Na parte posterior da igreja, em uma área mais reservada, ainda em fase de construção e feita de madeira, encontravam-se os banheiros masculinos e femininos. Essa estrutura, em desenvolvimento, evidenciava o contínuo esforço de melhorias e expansões para atender às necessidades crescentes da comunidade.
Contudo, a falta de consideração de muitos fiéis do sexo masculino resultava em uma escolha deliberada de não utilizar os sanitários reservados para suas necessidades fisiológicas. A área posterior da igreja, infelizmente, exalava constantemente o odor de urina, e durante o verão, com o aumento das temperaturas, a situação tornava-se insuportável, com o desagradável cheiro permeando até o interior da igreja.
Apesar das inúmeras advertências proferidas pelo padre, que educadamente solicitava do púlpito o uso dos banheiros e a abstenção de urinar nas dependências da igreja, suas súplicas não eram atendidas. Infelizmente, os mesmos fiéis, demonstrando pouca educação e desafiando a autoridade do pároco, persistiam nessa prática, comprometendo a atmosfera do local de culto.
Em um dia após o sermão, do alto do púlpito da igreja, o padre, visivelmente irritado, proclamou em voz alta que tomaria as medidas apropriadas contra tais atos. No entanto, mesmo com essa advertência enfática, os meses se passaram e a prática deseducada persistia, sem mostrar sinais de cessação.
O padre, conhecido por sua bondade, era igualmente reconhecido por sua firmeza e autoridade. Ele sempre havia sido uma pessoa benevolente, mas ao mesmo tempo, possuía uma energia vigorosa e uma postura autoritária. Sua intolerância à desobediência no rebanho refletia a típica atitude de um líder acostumado a tomar decisões, mesmo que essas decisões pudessem desagradar a muitos. Diante dessa situação contínua, tornava-se evidente que o padre estava disposto a agir com determinação para preservar a dignidade e o respeito no ambiente sagrado da igreja.
Na área acima do local frequentemente desrespeitado, cuidadosamente escavaram um buraco raso, com aproximadamente um metro de largura e três metros de comprimento, atravessando a parte traseira da igreja. Enterraram uma placa de cobre e a cobriram generosamente com sal grosso, também espalhando o sal ao redor. Após recolocar toda a terra removida, saturaram o local com água. O desavisado que ali se aventurasse para urinar, com o jato de urina atingindo a placa enterrada e os pés úmidos, criaria um curto-circuito de baixa voltagem e alta amperagem. Embora não causasse perigo de morte ou danos significativos, o indivíduo desrespeitoso receberia um choque elétrico, induzindo-o a dar um considerável salto para trás.
Na manhã seguinte, ao romper do dia, o padre ativou discretamente seu dispositivo e, com serenidade, retirou-se para a canônica para os preparativos da primeira missa do dia. Após algum tempo, quando a maioria dos fiéis começava a chegar à igreja, ecoou uma estrondosa algazarra, aparentemente vinda de dois ou três homens, seguida imediatamente por vigorosas imprecações.
Um clima de perplexidade tomou conta da congregação, uma vez que ninguém compreendia o que estava ocorrendo. Esses episódios continuaram ao longo das três missas matinais, sem que o padre ou qualquer pessoa explicasse o que estava acontecendo. Dada a limitada compreensão da eletricidade pela maioria das pessoas naquela época, já que poucos tinham essa tecnologia em suas casas, levou um tempo considerável para que percebessem a natureza dos eventos. Alguns, mais impressionáveis, chegaram até a especular sobre uma possível intervenção divina, imaginando que alguma força superior estivesse agindo conforme as palavras do padre, que durante as missas expressara sua determinação em adotar medidas enérgicas para pôr fim à falta de respeito pela casa de Deus.
O medo gradualmente tomou conta daqueles que insistiam nesse comportamento desrespeitoso, e aos poucos, a igreja viu-se livre do incômodo mau cheiro que antes a afligia. O silêncio sobre a verdadeira causa da mudança criou uma aura de respeito reverencial pelo espaço sagrado, preservando assim a dignidade da casa de oração.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS



Missas nas Capelas do Interior de Barão de Cotegipe




 As Missas nas Capelas do Interior de 

Barão de Cotegipe


Em cada comunidade de Barão de Cotegipe existia sempre uma capela, que podia ser maior ou menor, conforme o número de famílias moradoras na localidade. A capela administrava  também o cemitério da pequena comunidade e uma cancha de bochas, junto a qual, muitas vezes, podia ter um pequeno bar, que funcionava nos sábados à tarde, aos domingos e em alguns lugares em dias feriados.

As capelas eram administradas por uma diretoria, composta por moradores do local, eleita por um ano, que mantinha estreito contato com a paróquia, na sede do município.

A cada ano o padre visitava esporadicamente cada capela onde rezava missa pelo menos uma vez ao ano, sempre no dia do santo a quem a capela estava dedicada. Ele podia também retornar em ocasiões especiais como batizados, crismas e ainda, quando estava disponível, por motivo de algum falecimento de associados.

Aos domingos, sempre que o padre não vinha, a comunidade realizava um encontro religioso no qual algum dos moradores, geralmente, aquele com mais conhecimento dos ritos católicos, “pregava la corona”, isto é, rezava o terço, juntamente com todos os presentes.

No dia anterior às festas do padroeiro, a capela era o centro de intensa atividade, onde vários grupos de associados, todos voluntários, trabalhavam preparando as refeições a serem servidas no almoço do dia seguinte. Essa atividade muitas vezes só se encerrava na madrugada.

Na manhã da festa, os moradores chegavam em diversos meios de transporte, alguns de vários quilômetros de distancia, e começavam a se concentrar próximos à capela. Alguns aproveitavam a oportunidade para fazer uma visita ao cemitério, ao túmulo dos seus familiares já falecidos. Terminada a breve visita, voltavam a reunir-se com os outros que estavam descansando à sombra de grossas árvores,  esperando pela chegada do padre. Este vinha da sede do município, após já ter oficiado duas missas na igreja matriz, sempre dirigindo a sua velha caminhonete Rural Willys. Geralmente a missa nas capelas estavam marcadas para as onze horas e  terminava por volta do meio-dia, quando então seria servido um grande almoço coletivo, cuja renda era destinada à paróquia e manutenção da capela. O almoço quase sempre consistia de um grande churrasco, adquirido mediante o pagamento e retirada de uma ficha no caixa da capela. A carne e os mantimentos para confecção dos pratos eram quase todos doados pelos associados e o total da renda obtida revertida para a capela e para a paróquia.

Quando a caminhonete do padre era então avistada ao longe, ainda na estrada em cima do morro, começavam a tocar o pequeno sino do campanário, uma construção também em madeira, tal qual o prédio da própria capela.

Os fiéis ordenadamente começavam a entrar no pequeno templo, já se separando os homens das mulheres, logo ali na entrada, mantendo-se assim para tomarem os seus bancos para sentar. 

Em ambos os lados do altar ficavam as imagens de dois grandes anjos alados, os quais seguravam cada um uma grande vela.  À frente de cada anjo ficava uma fileira de bancos. O anjo da esquerda era de cor azul e o da direita cor de rosa. Os homens se sentavam nos bancos frente ao anjo azul e as mulheres e crianças frente aquele cor de rosa. 

Os bancos eram aproximadamente em número de vinte, variando muito conforme o comprimento da capela. 

Este interessante costuma de separação por sexo, para assistir as missas, ainda se podia encontrar no decorrer dos anos 1990.

Naquela época as missas sempre eram rezadas em português e não mais em latim, e duravam por volta de uma hora, ou pouco mais, conforme a inspiração do padre. Durante o sermão muitas vezes conforme era a etnia de proveniência do padre, ou ainda conforme a predominância étnica dos fiéis daquela determinada capela, este poderia falar em italiano – na realidade sempre era em talian, o dialeto vêneto-brasileiro, língua criada no Rio Grande do Sul pelos imigrantes. Em outros lugares o sermão poderia ser em polonês, já que esta etnia também era muito presente em Barão de Cotegipe e em alguns municípios vizinhos, 

Cada capela tinha orgulho de organizar e manter um pequeno coral, que acompanhava o padre durante o desenrolar da missa. Esses corais se rivalizavam com os de outras localidades. Era sempre formado por homens e mulheres da localidade, orientados e regidos por um deles, que tinha mais conhecimento de música. Muitas vezes acrescentavam um violão e mais frequentemente um acordeão.

Após terminada a missa os presentes se dirigiam para o local onde seria servido o churrasco. Naquele tempo era sempre ao ar livre, em volta de uma grande churrasqueira. Não havia mesas para todos, assim cada família se acomodava como podia, no chão mesmo, embaixo de grandes árvores, com o grande espeto de madeira cravado no gramado. Como expliquei, o churrasco era adquirido antes da missas e o comprador recebia uma ficha com o número do espeto adquirido. As bebidas também eram adquiridas no pequeno bar anexo a cancha de bochas ou em um outro local improvisado.

A seguir se podia ouvir a grande cantoria, que grupos de amigos improvisavam, rivalizando-se para ver quem cantava mais alto. As mulheres se reuniam, um pouco mais afastadas dos homens para conversarem e se inteirar das novidades das outras famílias. 


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

Erechim RS





 


Um Anjo Caído em Barão de Cotegipe: Triste Relato





O dia, já não me recordo bem, mas seguramente foi algumas semanas após a minha chegada em Barão de Cotegipe, em 30 de setembro de 1969. Tudo nesse local era diferente e muito estranho para mim. Ainda não conhecia quase ninguém, os costumes locais e principalmente os modos de falar das pessoas, as suas gírias, muito diferentes dos paranaenses. Era uma noite fria de fim de inverno; estávamos na primavera, mas ainda fazia muito frio e chovia muito há vários dias, como acontece frequentemente por estas bandas durante este período. O rio Uruguai, que não ficava muito longe, já estava cheio, transbordando muitos metros acima das margens. O vento era forte, e o minuano ainda teimava em se fazer ouvir pelas frestas da janela do pequeno apartamento, situado na parte de trás da bonita capela do hospital São Vicente de Paulo, local onde então eu morava quando solteiro. Era perto das 23 horas, e eu já me preparava para deitar, pois o dia seguinte seria de muito trabalho; eu deveria acordar cedo para começar uma cirurgia programada às seis horas. Foi quando ouvi distante, insistentes toques na campainha do hospital, seguidos de fortes batidas na porta de ferro da entrada, um barulho que eu estava começando a me acostumar e que ainda deveria ouvir por muitos anos. O barulho era misturado com batidas de palmas e gritos de ao menos duas vozes masculinas, chamando: "doutor! doutor!" Esse tipo agitado de despertar, a qualquer hora da noite, foi se tornando rotina para mim, e aos poucos fui me acostumando. Os dois homens que chegaram tinham vindo numa camioneta rural Willys, veículo muito em moda nas cidades do interior naqueles anos. Estava toda coberta de barro, com os vidros laterais e traseiros totalmente escurecidos pela lama. Quando fui chamado pela enfermeira de plantão, já estava me preparando para ir ver o que estava acontecendo. Após se identificarem, os dois homens, demonstrando muita ansiedade, explicaram quase juntos o motivo daquela visita. Fiquei então sabendo que um deles era o pai de uma criança acidentada naquela mesma tarde, quando, junto com a mãe, estavam levando a forragem para a criação, no potreiro, que ficava logo atrás da casa da família. Mesmo com toda aquela chuva e frio, era necessário providenciar o sustento para os poucos animais que criavam, especialmente para a valiosa e tão necessária junta de bois, que os ajudava nos trabalhos pesados da lavoura. O outro recém-chegado, que eu também ainda não conhecia, era o dono da casa de comércio da localidade onde aquela família morava e que, como possuía veículo próprio, sempre fazia corridas para ajudar os vizinhos, como se fosse um táxi, pois, esses ainda não existiam na cidade. Contou o pai que a sua filha caçula tinha sofrido um acidente e morrido esmagada, após ter sido atingida por “alguns paus de lenha”. Queria o atestado de óbito para poder enterrá-la no cemitério da localidade, já naquela manhã. Eu ainda não conhecia as pessoas e os costumes locais, fiquei muito desconfiado daquele acidente. Como ainda fazia pouco tempo que eu estava morando em Cotegipe, não conhecia muito bem os termos gaúchos e modos de falar dos locais, uma mistura de palavras em português, espanhol e dialeto vêneto. Não podia eu acreditar que "alguns paus de lenha" pudessem causar a morte de uma criança. Até então eu só conhecia paus de lenha cortados para fogão! Assim, rapidamente me aprontei para ir com eles fazer a verificação do óbito, passando antes na casa do delegado da cidade, para pedir que viesse junto comigo. Vindo de uma cidade bem maior, com mais malandragem, eu era muito desconfiado. Acreditava que naquele caso pudesse ter havido alguma forma de maus tratos a menores ou poderia mesmo estar ocorrendo a ocultação da real causa da morte daquela criança. Após mais de uma hora de cansativa viagem, por estradas cada vez mais estreitas, escuras e tortuosas, muito enlameadas e escorregadias, repletas de buracos, chegamos à casa da família enlutada. Estava tudo muito escuro, devido à noite de chuva e pela total falta de luz elétrica, uma comodidade que, naqueles tempos, somente a sede do município contava. Atravessada a porteira, mesmo ao longe da porta de entrada da pequena e muito pobre casa de colônia, já se ouviam os rumores tristes das orações e dos cânticos de encomendação, cantados em idioma polonês, e em voz alta recitados pelos presentes. Ao entrar na pequena sala, nos deparamos com uma cena muito difícil de esquecer e que me acompanha até os dias de hoje, apesar de mais de cinquenta anos já terem se passado. 

A casa era toda construída com tábuas largas de madeira de pinho, sem pintura, e espalhadas pelas paredes do principal cômodo, estavam dispostas algumas imagens de santos e duas ou três fotografias antigas de família, coloridas à mão, colocadas em armações também muito antigas e já um pouco desgastadas pelo tempo. A única luz naquele aposento provinha de um pequeno lampião à querosene, que ao queimar, além da fumaça negra, também deixava no ar um cheiro penetrante e característico. Em cima de uma mesa retangular de madeira, certamente a mesma que usavam para fazer as refeições diárias, estava colocado um pequeno e rude caixão de madeira. Creio que tenha sido confeccionado por eles mesmos, muito tosco e todo pintado de branco, circundado por flores naturais de vários tipos e cores. Quatro pequenas velas acesas, colocadas nos quatro cantos daquele pequeno caixão, compunham aquela triste cena. Dentro deste caixãozinho branco, cercada de tecido branco e pétalas de flores amarelas, estava deitada a criança falecida. Muito branca, pálida e com algumas manchas escuras, muito evidentes, na face e no pescoço, apesar da pouca luz do ambiente.

Era uma garotinha loira, magrinha, muito bonita, com apenas três ou quatro anos de idade. Ao seu redor se amontoavam algumas crianças, de várias idades e tamanhos, todas descalças, que choravam muito. Eram todas loirinhas como a pequena Elisabete, este era o seu nome. Eram os irmãos e irmãs da pequena falecida, os quais, com muita dor, se despediam da irmãzinha que se foi.

A mãe, os avós maternos, junto com um grupo de vizinhos, compunham um lúgubre e desafinado coro que entoava aquelas ladainhas fúnebres, todos colocados em torno daquela pequena mesa mal iluminada. A cena era realmente muito comovente, nos deixando com os olhos marejados. Depois de examinar a pequena vítima, ainda dentro do seu pequeno caixão, que lembrava mais um berço, ouvimos as explicações do ocorrido do pai, da mãe e de outros familiares. Pedimos então para ver o local do acidente e logo fomos conduzidos para a parte posterior da casa, no pequeno e lamacento potreiro, perto do estábulo. Ali, com as lanternas de pilhas que tínhamos trazido, pudemos logo identificar um amontoado de compridas e grossas toras de madeira, espalhadas em várias direções, que tinham deslizado de uma formação maior, que antes formava uma alta pilha. Aqueles "paus de lenha", como eles diziam, estavam estocados e já tinham sido vendidos para uma serraria. Apenas estavam aguardando o cessar das chuvas, para serem transportados para a sede de Cotegipe. Se as causas do desmoronamento foram as chuvas dos últimos dias, que encharcaram o solo e também as toras ou, talvez, porque a pilha não tenha sido bem feita, faltando um escoramento mais firme, não sabemos. Não estávamos ali para encontrar possíveis culpados, os quais, se existiram, já tinham sido demasiadamente punidos com a morte daquela criança. Não preciso dizer que o nosso retorno foi muito triste, todos calados, melancólicos, pensando nas cenas de dor daquela família e, principalmente, naquela linda garotinha deitadinha, como se ainda estivesse dormindo, no seu caixãozinho branco. Muito triste mesmo.


Obs. os nomes e o local foram omitidos ou trocados para manter o sigilo


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS


O Legado do Cônego Estanislau Pollon: Líder e Visionário em Barão de Cotegipe



 O Legado do Cônego Estanislau Pollon: Líder e Visionário em Barão de Cotegipe 


A longa permanência do cônego Estanislau Pollon em Cotegipe, como pároco, foi de fundamental importância para o destino daquela distante e quase esquecida vila, que tempos atrás já foi chamada de Floresta, um dos distritos de Erechim. Realmente, ele foi o motor propulsor que conseguiu impulsionar o antigo distrito de Floresta, criando as condições para a sua emancipação, transformando-se no município de Barão de Cotegipe. Sua inconteste liderança ia muito além das atividades meramente religiosas e paroquiais, desempenhadas com inteligência e tenacidade, estendendo-se a várias outras áreas, como saúde, educação, política, bem-estar social e lazer.

Quando ainda não existia energia elétrica no povoado, ele foi o criador e incentivador de uma pequena usina de força, com gerador movido por queda de água, que naquele tempo dava conta do atendimento à cidadezinha e algumas poucas propriedades rurais. Incentivou e, com muita luta, criou o hospital São Vicente de Paulo, uma construção bastante grande para a época, trazendo de Curitiba, para administrá-lo, as Irmãs de Caridade da Ordem das Vicentinas. Também foi através de sua visão e liderança a criação do Colégio Cristo Rei, entidade de ensino médio para alunos de ambos os sexos, assim como o conceituado internato, ambos administrados pela mesma ordem das Irmãs Vicentinas, escola de referência por onde passaram centenas e centenas de jovens provenientes de todo o Alto Uruguai, e mesmo de municípios mais distantes, como os de Santa Catarina.

Idealizou e construiu a grande Igreja de Nossa Senhora do Rosário, imensa construção mesmo para os padrões atuais, localizada em frente à avenida principal da cidade, com duas altas torres e tendo no seu interior uma comprida nave. Também foi sua a criação do enorme ginásio de esportes do município, construído em local da própria paróquia, ao lado da Igreja Matriz, o qual logo se tornou o espaço ideal para grandes festas e apresentações culturais na cidade, além de um concorrido campo de futebol de salão.

De personalidade forte e centralizadora, conquistou o respeito e a amizade da maioria da população, mas, como todo líder, também a antipatia de alguns poucos invejosos do seu carisma e sucesso empreendedor. Desde minha chegada à cidade, em 1º de setembro de 1969, tive nele um grande amigo e aliado, tanto social quanto profissionalmente. Sempre tive nele um grande apoiador do meu trabalho que desempenhava no hospital. Muitas vezes fui seu confidente nos assuntos financeiros e outros de cunho profissional.

Assim que cheguei, então solteiro, sem conhecer ninguém, ele foi a pessoa com quem mais me relacionei no primeiro ano na cidade. Uma vez por semana, sempre à noite, ele me esperava para conversar ou jogar algum jogo, em sua residência, a espaçosa Casa Paroquial, construção sólida de dois pisos e inúmeros aposentos. Seu jogo favorito era uma espécie de arremesso de pequenos discos de madeira com os do adversário, com o objetivo de jogá-los em uma espécie de caçapa no final da mesa. Aprendi com facilidade, e sempre jogávamos algumas partidas enquanto conversávamos, tomando um chá com bolachas ou apreciando um licor caseiro que o cônego tivesse ganho de algum paroquiano, sempre servidos pela sua atenciosa perpétua.

Acompanhei a fase final de construção e acabamento do ginásio de esportes, especialmente a compra da madeira de lei para o piso; se não me engano, ele optou pelo Tarumã, uma madeira muito dura e pesada. Todos os domingos, depois da última missa, ele passava lá no hospital, onde eu morava na época, para me pegar com sua velha caminhonete, e íamos visitar alguma capela que estava em festa pelo dia do seu padroeiro. Para mim, essas saídas dominicais eram muito gratificantes após uma dura semana, atolado em trabalho e preocupações.

Em todas essas ocasiões, eu participava da missa por ele oficiada e logo após ele me apresentava à comunidade ali reunida, o que muito me ajudou a conhecer com mais profundidade a sociedade local. Durante o trajeto da viagem, para essas afastadas capelas, tínhamos oportunidade de conversar muito francamente sobre todos os tipos de assuntos. Essas viagens também serviram para consolidar ainda mais a amizade entre nós.

Em um sábado, recebi o convite para acompanhá-lo até a casa de uns seus parentes, que moravam em Áurea, então distrito do município de Gaurama. A viagem era longa para a época e toda ela percorrida em estrada de chão batido, a chamada batinga. Como em todo aquele distrito, na casa não havia luz elétrica e sim uma luz fraca proveniente de dois pequenos lampiões a querosene. Foi lá que ele tentou me pregar uma peça. Para o jantar, tivemos uma saborosa sopa com macarrão, de cor escura. Falavam entre eles quase que só em polonês. Ninguém me esclareceu o que era aquilo. Eu também não conhecia as tradições polonesas para poder antever aonde queriam chegar. Terminada a refeição, o cônego perguntou se eu havia gostado daquele prato típico, o que prontamente respondi afirmativamente, tanto que o repeti duas vezes. Com um largo sorriso nos lábios, ele e seus familiares contaram que aquele prato se chamava czarnina e era feito com sangue de pato, daí aquela coloração bastante escura. Ficaram muito contentes, principalmente a dona da casa e cozinheira, que eu, uma visita de origem italiana, tivesse gostado daquele prato típico deles.

Em outra ocasião, numa tarde muito quente de verão, no meio da semana, talvez fosse um feriado (não recordo bem), o cônego me telefonou convidando para um passeio até a barragem da usina elétrica, para um banho de rio. Quando chegou com sua inseparável camioneta, estava acompanhado por dois jovens padres poloneses, seus hóspedes na casa canônica. O local onde ficava a barragem da usina elétrica, então já desativada, era gramado e bastante arborizado, um verdadeiro oásis no meio daquele sol abrasador. O cônego e os padres tiraram suas batinas e outras roupas, ficando apenas de calção de banho, e mergulharam naquela água limpa e fresca. Eu resolvi não entrar na água, pois estava com gripe. O cônego e os padres pareciam três garotos de colégio, alegres, nadando e saltando sem descanso das bordas da represa. No final da tarde, retornamos para Cotegipe.

Eram nessas oportunidades, que podíamos conhecer mais claramente as duas faces da personalidade do cônego: uma austera, sisuda e de poucas palavras, que usava no seu dia a dia de trabalho, e a outra bastante alegre, extrovertida e brincalhona, quando na intimidade com amigos, longe dos seus tantos deveres. Como seu médico particular acompanhei o desenrolar da sua doença e o longo período de sofrimento que se seguiu, especialmente nos seus últimos anos de vida, sempre enfrentado com muito otimismo, coragem, fé e resignação. Lembro que quando retornou de Santa Maria, onde se submeteu a um grande tratamento, não se cansava de me dizer: “A gente não é ninguém longe da nossa casa”.

A figura do cônego Estanislau Pollon destaca-se como um verdadeiro líder e visionário que, além de suas responsabilidades religiosas, desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento e na transformação da vila de Floresta em Barão de Cotegipe. Seu legado vai além das construções materiais, abrangendo a promoção da educação, saúde e bem-estar social. A dualidade de sua personalidade, entre a seriedade no trabalho e a jovialidade na intimidade, demonstra a riqueza de suas contribuições para a comunidade. Este  artigo destaca momentos marcantes que revelam não apenas sua liderança, mas também a conexão e amizade que cultivou com aqueles ao seu redor. O título "O Legado do Cônego Estanislau Pollon: Líder e Visionário em Barão de Cotegipe", ressalta a importância e a influência duradoura desse grande líder na história da região.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

Erechim RS