A história contada em fotos do atual município de Barão de Cotegipe, localizado na região do Alto Uruguai, Rio Grande do Sul. Partindo de um pequeno amontoado de pequenas casas de madeira, onde alguns pioneiros se instalaram, passando à distrito de Floresta, do município de José Bonifácio e posteriormente à município de Barão de Cotegipe. As fotos não seguem uma ordem cronológica e nem de importância. Os contatos com o autor também poderão ser feitos no endereço luizcpiazzetta@gmail.com
Memórias de Uma Festa de Capela no Interior de Barão de Cotegipe
As Campanhas de Vacinações no Guatapará - Barão de Cotegipe
Nos anos finais da década de 1960, Guatapará destacava-se como a localidade mais carente de Barão de Cotegipe, situada à distância considerável da sede do município. Embora abrigasse apenas poucas famílias, a presença de numerosas crianças tornava imperativa a realização de campanhas de vacinação. Na ausência de um posto de saúde em Barão de Cotegipe naquela época, uma tarde de sábado testemunhou a iniciativa solidária de um grupo, composto por mim e algumas irmãs do hospital, que se uniram em um mutirão para administrar vacinas de forma gratuita a essa população marginalizada. A partir desse momento, comprometemo-nos a realizar anualmente essa campanha, estendendo a mão solidária à comunidade de Guatapará. Persistimos nesse esforço constante até que, alguns anos mais tarde, testemunhamos a instalação do tão aguardado posto de saúde na cidade de Barão de Cotegipe. Essa conquista não se deu sem considerável empenho e uma árdua batalha política junto ao governo estadual em Porto Alegre. Foi necessário um esforço incansável, marcado por negociações estratégicas, articulações políticas e uma firme defesa da necessidade vital desse posto de saúde para a comunidade de Barão de Cotegipe. Superando obstáculos e desafios, nosso compromisso persistente resultou na realização desse projeto, representando não apenas um marco na infraestrutura de saúde local, mas também uma prova tangível do poder da mobilização comunitária e da advocacia política em prol do bem comum. O Porto de Saúde representou não apenas o progresso em termos de acesso à saúde preventiva, mas também uma mudança significativa na qualidade de vida para os habitantes, encerrando a necessidade de nossas intervenções regulares e evidenciando o impacto positivo de iniciativas dedicadas à promoção do bem-estar comunitário. Foi durante os primeiros dias no hospital que percebi a alarmante incidência de casos de difteria, tétano e coqueluche originados precisamente de Guatapará. Motivado por essa constatação, decidi envolver o hospital nessa nobre empreitada, que realizávamos nas tardes de sábado. A obtenção das vacinas necessárias foi possível graças à colaboração da delegacia de saúde de Erechim, cujo diretor elogiou e apoiou entusiasticamente nossa iniciativa em prol da saúde da comunidade. Ao seguir pela estrada em direção a São Valentim, ao alcançar o "Embu", a orientação era dobrar à direita na via que conduz a Itatiba do Sul. No ponto próximo à localidade de Wawruck, quase em frente à grande casa de comércio dos amigos Flório Rigotti e Casimira, virava-se à esquerda, revelando uma estreita e sinuosa estrada, em sua maioria em declive, que nos guiava até as proximidades da pequena comunidade, composta por algumas casas. Após percorrer essa estrada delicada, com a tração nas quatro rodas ativada na quase nova rural Willys do hospital, atravessamos "potreiros" sem trilhas definidas, contornando tocos de árvores cortadas há tempos, superando íngremes lombadas e conduzindo entre algumas vacas magras, diretamente sobre a grama do pasto ralo. A cada momento, um membro do grupo precisava descer para abrir e, posteriormente, fechar algumas porteiras que se interpunham em propriedades particulares ao longo do caminho. Este trajeto desafiador culminava em uma experiência que exigia habilidade e determinação para alcançar o destino desejado. Ao chegarmos ao povoado, iniciamos prontamente a aplicação das vacinas que havíamos trazido, seguindo um calendário cuidadosamente planejado em colaboração com a professora da única escola local. O desafio era considerável, dada a quantidade significativa de crianças que necessitavam ser vacinadas, mas, felizmente, concluímos o trabalho antes do previsto, pois todos já aguardavam ansiosos na pequena escola. Alguns membros do grupo aproveitaram a oportunidade para atravessar para o outro lado do rio, utilizando uma "pinguela" precária e perigosa, suspensa por fios de aço, deixando a camionete para trás. Era imperativo estender a vacinação também às crianças que residiam naquela margem do rio, já pertencente ao município vizinho de São Valentim. Guatapará, embora não me lembre se fosse oficialmente um distrito — o que parece improvável devido às dificuldades de acesso —, era um agrupamento de modestas habitações, todas muito simples, ao redor de uma escola e de uma pequena capela, ambas construídas em madeira e desprovidas de pintura, assim como as moradias circundantes. Os habitantes eram pequenos agricultores, enfrentando inúmeras dificuldades para manter uma vida digna. Sua produção limitava-se à subsistência, e o pouco que conseguiam extrair daquele terreno pedregoso destinava-se exclusivamente às despesas cotidianas, geralmente liquidadas na casa de comércio do povoado de Wawruck.
A Região do Alto Uruguai na Década de 1970
Os Costumes e o Linguajar dos Gaúchos
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS
Um Inesperado mas Agradável Reencontro
Um Leitão Recheado: Premio no Cinquilho em Barão de Cotegipe
A Vingança do Padre
Missas nas Capelas do Interior de Barão de Cotegipe
As Missas nas Capelas do Interior de
Barão de Cotegipe
Em cada comunidade de Barão de Cotegipe existia sempre uma capela, que podia ser maior ou menor, conforme o número de famílias moradoras na localidade. A capela administrava também o cemitério da pequena comunidade e uma cancha de bochas, junto a qual, muitas vezes, podia ter um pequeno bar, que funcionava nos sábados à tarde, aos domingos e em alguns lugares em dias feriados.
As capelas eram administradas por uma diretoria, composta por moradores do local, eleita por um ano, que mantinha estreito contato com a paróquia, na sede do município.
A cada ano o padre visitava esporadicamente cada capela onde rezava missa pelo menos uma vez ao ano, sempre no dia do santo a quem a capela estava dedicada. Ele podia também retornar em ocasiões especiais como batizados, crismas e ainda, quando estava disponível, por motivo de algum falecimento de associados.
Aos domingos, sempre que o padre não vinha, a comunidade realizava um encontro religioso no qual algum dos moradores, geralmente, aquele com mais conhecimento dos ritos católicos, “pregava la corona”, isto é, rezava o terço, juntamente com todos os presentes.
No dia anterior às festas do padroeiro, a capela era o centro de intensa atividade, onde vários grupos de associados, todos voluntários, trabalhavam preparando as refeições a serem servidas no almoço do dia seguinte. Essa atividade muitas vezes só se encerrava na madrugada.
Na manhã da festa, os moradores chegavam em diversos meios de transporte, alguns de vários quilômetros de distancia, e começavam a se concentrar próximos à capela. Alguns aproveitavam a oportunidade para fazer uma visita ao cemitério, ao túmulo dos seus familiares já falecidos. Terminada a breve visita, voltavam a reunir-se com os outros que estavam descansando à sombra de grossas árvores, esperando pela chegada do padre. Este vinha da sede do município, após já ter oficiado duas missas na igreja matriz, sempre dirigindo a sua velha caminhonete Rural Willys. Geralmente a missa nas capelas estavam marcadas para as onze horas e terminava por volta do meio-dia, quando então seria servido um grande almoço coletivo, cuja renda era destinada à paróquia e manutenção da capela. O almoço quase sempre consistia de um grande churrasco, adquirido mediante o pagamento e retirada de uma ficha no caixa da capela. A carne e os mantimentos para confecção dos pratos eram quase todos doados pelos associados e o total da renda obtida revertida para a capela e para a paróquia.
Quando a caminhonete do padre era então avistada ao longe, ainda na estrada em cima do morro, começavam a tocar o pequeno sino do campanário, uma construção também em madeira, tal qual o prédio da própria capela.
Os fiéis ordenadamente começavam a entrar no pequeno templo, já se separando os homens das mulheres, logo ali na entrada, mantendo-se assim para tomarem os seus bancos para sentar.
Em ambos os lados do altar ficavam as imagens de dois grandes anjos alados, os quais seguravam cada um uma grande vela. À frente de cada anjo ficava uma fileira de bancos. O anjo da esquerda era de cor azul e o da direita cor de rosa. Os homens se sentavam nos bancos frente ao anjo azul e as mulheres e crianças frente aquele cor de rosa.
Os bancos eram aproximadamente em número de vinte, variando muito conforme o comprimento da capela.
Este interessante costuma de separação por sexo, para assistir as missas, ainda se podia encontrar no decorrer dos anos 1990.
Naquela época as missas sempre eram rezadas em português e não mais em latim, e duravam por volta de uma hora, ou pouco mais, conforme a inspiração do padre. Durante o sermão muitas vezes conforme era a etnia de proveniência do padre, ou ainda conforme a predominância étnica dos fiéis daquela determinada capela, este poderia falar em italiano – na realidade sempre era em talian, o dialeto vêneto-brasileiro, língua criada no Rio Grande do Sul pelos imigrantes. Em outros lugares o sermão poderia ser em polonês, já que esta etnia também era muito presente em Barão de Cotegipe e em alguns municípios vizinhos,
Cada capela tinha orgulho de organizar e manter um pequeno coral, que acompanhava o padre durante o desenrolar da missa. Esses corais se rivalizavam com os de outras localidades. Era sempre formado por homens e mulheres da localidade, orientados e regidos por um deles, que tinha mais conhecimento de música. Muitas vezes acrescentavam um violão e mais frequentemente um acordeão.
Após terminada a missa os presentes se dirigiam para o local onde seria servido o churrasco. Naquele tempo era sempre ao ar livre, em volta de uma grande churrasqueira. Não havia mesas para todos, assim cada família se acomodava como podia, no chão mesmo, embaixo de grandes árvores, com o grande espeto de madeira cravado no gramado. Como expliquei, o churrasco era adquirido antes da missas e o comprador recebia uma ficha com o número do espeto adquirido. As bebidas também eram adquiridas no pequeno bar anexo a cancha de bochas ou em um outro local improvisado.
A seguir se podia ouvir a grande cantoria, que grupos de amigos improvisavam, rivalizando-se para ver quem cantava mais alto. As mulheres se reuniam, um pouco mais afastadas dos homens para conversarem e se inteirar das novidades das outras famílias.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS
Um Anjo Caído em Barão de Cotegipe: Triste Relato
O dia, já não me recordo bem, mas seguramente foi algumas semanas após a minha chegada em Barão de Cotegipe, em 30 de setembro de 1969. Tudo nesse local era diferente e muito estranho para mim. Ainda não conhecia quase ninguém, os costumes locais e principalmente os modos de falar das pessoas, as suas gírias, muito diferentes dos paranaenses. Era uma noite fria de fim de inverno; estávamos na primavera, mas ainda fazia muito frio e chovia muito há vários dias, como acontece frequentemente por estas bandas durante este período. O rio Uruguai, que não ficava muito longe, já estava cheio, transbordando muitos metros acima das margens. O vento era forte, e o minuano ainda teimava em se fazer ouvir pelas frestas da janela do pequeno apartamento, situado na parte de trás da bonita capela do hospital São Vicente de Paulo, local onde então eu morava quando solteiro. Era perto das 23 horas, e eu já me preparava para deitar, pois o dia seguinte seria de muito trabalho; eu deveria acordar cedo para começar uma cirurgia programada às seis horas. Foi quando ouvi distante, insistentes toques na campainha do hospital, seguidos de fortes batidas na porta de ferro da entrada, um barulho que eu estava começando a me acostumar e que ainda deveria ouvir por muitos anos. O barulho era misturado com batidas de palmas e gritos de ao menos duas vozes masculinas, chamando: "doutor! doutor!" Esse tipo agitado de despertar, a qualquer hora da noite, foi se tornando rotina para mim, e aos poucos fui me acostumando. Os dois homens que chegaram tinham vindo numa camioneta rural Willys, veículo muito em moda nas cidades do interior naqueles anos. Estava toda coberta de barro, com os vidros laterais e traseiros totalmente escurecidos pela lama. Quando fui chamado pela enfermeira de plantão, já estava me preparando para ir ver o que estava acontecendo. Após se identificarem, os dois homens, demonstrando muita ansiedade, explicaram quase juntos o motivo daquela visita. Fiquei então sabendo que um deles era o pai de uma criança acidentada naquela mesma tarde, quando, junto com a mãe, estavam levando a forragem para a criação, no potreiro, que ficava logo atrás da casa da família. Mesmo com toda aquela chuva e frio, era necessário providenciar o sustento para os poucos animais que criavam, especialmente para a valiosa e tão necessária junta de bois, que os ajudava nos trabalhos pesados da lavoura. O outro recém-chegado, que eu também ainda não conhecia, era o dono da casa de comércio da localidade onde aquela família morava e que, como possuía veículo próprio, sempre fazia corridas para ajudar os vizinhos, como se fosse um táxi, pois, esses ainda não existiam na cidade. Contou o pai que a sua filha caçula tinha sofrido um acidente e morrido esmagada, após ter sido atingida por “alguns paus de lenha”. Queria o atestado de óbito para poder enterrá-la no cemitério da localidade, já naquela manhã. Eu ainda não conhecia as pessoas e os costumes locais, fiquei muito desconfiado daquele acidente. Como ainda fazia pouco tempo que eu estava morando em Cotegipe, não conhecia muito bem os termos gaúchos e modos de falar dos locais, uma mistura de palavras em português, espanhol e dialeto vêneto. Não podia eu acreditar que "alguns paus de lenha" pudessem causar a morte de uma criança. Até então eu só conhecia paus de lenha cortados para fogão! Assim, rapidamente me aprontei para ir com eles fazer a verificação do óbito, passando antes na casa do delegado da cidade, para pedir que viesse junto comigo. Vindo de uma cidade bem maior, com mais malandragem, eu era muito desconfiado. Acreditava que naquele caso pudesse ter havido alguma forma de maus tratos a menores ou poderia mesmo estar ocorrendo a ocultação da real causa da morte daquela criança. Após mais de uma hora de cansativa viagem, por estradas cada vez mais estreitas, escuras e tortuosas, muito enlameadas e escorregadias, repletas de buracos, chegamos à casa da família enlutada. Estava tudo muito escuro, devido à noite de chuva e pela total falta de luz elétrica, uma comodidade que, naqueles tempos, somente a sede do município contava. Atravessada a porteira, mesmo ao longe da porta de entrada da pequena e muito pobre casa de colônia, já se ouviam os rumores tristes das orações e dos cânticos de encomendação, cantados em idioma polonês, e em voz alta recitados pelos presentes. Ao entrar na pequena sala, nos deparamos com uma cena muito difícil de esquecer e que me acompanha até os dias de hoje, apesar de mais de cinquenta anos já terem se passado.
A casa era toda construída com tábuas largas de madeira de pinho, sem pintura, e espalhadas pelas paredes do principal cômodo, estavam dispostas algumas imagens de santos e duas ou três fotografias antigas de família, coloridas à mão, colocadas em armações também muito antigas e já um pouco desgastadas pelo tempo. A única luz naquele aposento provinha de um pequeno lampião à querosene, que ao queimar, além da fumaça negra, também deixava no ar um cheiro penetrante e característico. Em cima de uma mesa retangular de madeira, certamente a mesma que usavam para fazer as refeições diárias, estava colocado um pequeno e rude caixão de madeira. Creio que tenha sido confeccionado por eles mesmos, muito tosco e todo pintado de branco, circundado por flores naturais de vários tipos e cores. Quatro pequenas velas acesas, colocadas nos quatro cantos daquele pequeno caixão, compunham aquela triste cena. Dentro deste caixãozinho branco, cercada de tecido branco e pétalas de flores amarelas, estava deitada a criança falecida. Muito branca, pálida e com algumas manchas escuras, muito evidentes, na face e no pescoço, apesar da pouca luz do ambiente.
Era uma garotinha loira, magrinha, muito bonita, com apenas três ou quatro anos de idade. Ao seu redor se amontoavam algumas crianças, de várias idades e tamanhos, todas descalças, que choravam muito. Eram todas loirinhas como a pequena Elisabete, este era o seu nome. Eram os irmãos e irmãs da pequena falecida, os quais, com muita dor, se despediam da irmãzinha que se foi.
A mãe, os avós maternos, junto com um grupo de vizinhos, compunham um lúgubre e desafinado coro que entoava aquelas ladainhas fúnebres, todos colocados em torno daquela pequena mesa mal iluminada. A cena era realmente muito comovente, nos deixando com os olhos marejados. Depois de examinar a pequena vítima, ainda dentro do seu pequeno caixão, que lembrava mais um berço, ouvimos as explicações do ocorrido do pai, da mãe e de outros familiares. Pedimos então para ver o local do acidente e logo fomos conduzidos para a parte posterior da casa, no pequeno e lamacento potreiro, perto do estábulo. Ali, com as lanternas de pilhas que tínhamos trazido, pudemos logo identificar um amontoado de compridas e grossas toras de madeira, espalhadas em várias direções, que tinham deslizado de uma formação maior, que antes formava uma alta pilha. Aqueles "paus de lenha", como eles diziam, estavam estocados e já tinham sido vendidos para uma serraria. Apenas estavam aguardando o cessar das chuvas, para serem transportados para a sede de Cotegipe. Se as causas do desmoronamento foram as chuvas dos últimos dias, que encharcaram o solo e também as toras ou, talvez, porque a pilha não tenha sido bem feita, faltando um escoramento mais firme, não sabemos. Não estávamos ali para encontrar possíveis culpados, os quais, se existiram, já tinham sido demasiadamente punidos com a morte daquela criança. Não preciso dizer que o nosso retorno foi muito triste, todos calados, melancólicos, pensando nas cenas de dor daquela família e, principalmente, naquela linda garotinha deitadinha, como se ainda estivesse dormindo, no seu caixãozinho branco. Muito triste mesmo.
O Legado do Cônego Estanislau Pollon: Líder e Visionário em Barão de Cotegipe
O Legado do Cônego Estanislau Pollon: Líder e Visionário em Barão de Cotegipe
A longa permanência do cônego Estanislau Pollon em Cotegipe, como pároco, foi de fundamental importância para o destino daquela distante e quase esquecida vila, que tempos atrás já foi chamada de Floresta, um dos distritos de Erechim. Realmente, ele foi o motor propulsor que conseguiu impulsionar o antigo distrito de Floresta, criando as condições para a sua emancipação, transformando-se no município de Barão de Cotegipe. Sua inconteste liderança ia muito além das atividades meramente religiosas e paroquiais, desempenhadas com inteligência e tenacidade, estendendo-se a várias outras áreas, como saúde, educação, política, bem-estar social e lazer.
Quando ainda não existia energia elétrica no povoado, ele foi o criador e incentivador de uma pequena usina de força, com gerador movido por queda de água, que naquele tempo dava conta do atendimento à cidadezinha e algumas poucas propriedades rurais. Incentivou e, com muita luta, criou o hospital São Vicente de Paulo, uma construção bastante grande para a época, trazendo de Curitiba, para administrá-lo, as Irmãs de Caridade da Ordem das Vicentinas. Também foi através de sua visão e liderança a criação do Colégio Cristo Rei, entidade de ensino médio para alunos de ambos os sexos, assim como o conceituado internato, ambos administrados pela mesma ordem das Irmãs Vicentinas, escola de referência por onde passaram centenas e centenas de jovens provenientes de todo o Alto Uruguai, e mesmo de municípios mais distantes, como os de Santa Catarina.
Idealizou e construiu a grande Igreja de Nossa Senhora do Rosário, imensa construção mesmo para os padrões atuais, localizada em frente à avenida principal da cidade, com duas altas torres e tendo no seu interior uma comprida nave. Também foi sua a criação do enorme ginásio de esportes do município, construído em local da própria paróquia, ao lado da Igreja Matriz, o qual logo se tornou o espaço ideal para grandes festas e apresentações culturais na cidade, além de um concorrido campo de futebol de salão.
De personalidade forte e centralizadora, conquistou o respeito e a amizade da maioria da população, mas, como todo líder, também a antipatia de alguns poucos invejosos do seu carisma e sucesso empreendedor. Desde minha chegada à cidade, em 1º de setembro de 1969, tive nele um grande amigo e aliado, tanto social quanto profissionalmente. Sempre tive nele um grande apoiador do meu trabalho que desempenhava no hospital. Muitas vezes fui seu confidente nos assuntos financeiros e outros de cunho profissional.
Assim que cheguei, então solteiro, sem conhecer ninguém, ele foi a pessoa com quem mais me relacionei no primeiro ano na cidade. Uma vez por semana, sempre à noite, ele me esperava para conversar ou jogar algum jogo, em sua residência, a espaçosa Casa Paroquial, construção sólida de dois pisos e inúmeros aposentos. Seu jogo favorito era uma espécie de arremesso de pequenos discos de madeira com os do adversário, com o objetivo de jogá-los em uma espécie de caçapa no final da mesa. Aprendi com facilidade, e sempre jogávamos algumas partidas enquanto conversávamos, tomando um chá com bolachas ou apreciando um licor caseiro que o cônego tivesse ganho de algum paroquiano, sempre servidos pela sua atenciosa perpétua.
Acompanhei a fase final de construção e acabamento do ginásio de esportes, especialmente a compra da madeira de lei para o piso; se não me engano, ele optou pelo Tarumã, uma madeira muito dura e pesada. Todos os domingos, depois da última missa, ele passava lá no hospital, onde eu morava na época, para me pegar com sua velha caminhonete, e íamos visitar alguma capela que estava em festa pelo dia do seu padroeiro. Para mim, essas saídas dominicais eram muito gratificantes após uma dura semana, atolado em trabalho e preocupações.
Em todas essas ocasiões, eu participava da missa por ele oficiada e logo após ele me apresentava à comunidade ali reunida, o que muito me ajudou a conhecer com mais profundidade a sociedade local. Durante o trajeto da viagem, para essas afastadas capelas, tínhamos oportunidade de conversar muito francamente sobre todos os tipos de assuntos. Essas viagens também serviram para consolidar ainda mais a amizade entre nós.
Em um sábado, recebi o convite para acompanhá-lo até a casa de uns seus parentes, que moravam em Áurea, então distrito do município de Gaurama. A viagem era longa para a época e toda ela percorrida em estrada de chão batido, a chamada batinga. Como em todo aquele distrito, na casa não havia luz elétrica e sim uma luz fraca proveniente de dois pequenos lampiões a querosene. Foi lá que ele tentou me pregar uma peça. Para o jantar, tivemos uma saborosa sopa com macarrão, de cor escura. Falavam entre eles quase que só em polonês. Ninguém me esclareceu o que era aquilo. Eu também não conhecia as tradições polonesas para poder antever aonde queriam chegar. Terminada a refeição, o cônego perguntou se eu havia gostado daquele prato típico, o que prontamente respondi afirmativamente, tanto que o repeti duas vezes. Com um largo sorriso nos lábios, ele e seus familiares contaram que aquele prato se chamava czarnina e era feito com sangue de pato, daí aquela coloração bastante escura. Ficaram muito contentes, principalmente a dona da casa e cozinheira, que eu, uma visita de origem italiana, tivesse gostado daquele prato típico deles.
Em outra ocasião, numa tarde muito quente de verão, no meio da semana, talvez fosse um feriado (não recordo bem), o cônego me telefonou convidando para um passeio até a barragem da usina elétrica, para um banho de rio. Quando chegou com sua inseparável camioneta, estava acompanhado por dois jovens padres poloneses, seus hóspedes na casa canônica. O local onde ficava a barragem da usina elétrica, então já desativada, era gramado e bastante arborizado, um verdadeiro oásis no meio daquele sol abrasador. O cônego e os padres tiraram suas batinas e outras roupas, ficando apenas de calção de banho, e mergulharam naquela água limpa e fresca. Eu resolvi não entrar na água, pois estava com gripe. O cônego e os padres pareciam três garotos de colégio, alegres, nadando e saltando sem descanso das bordas da represa. No final da tarde, retornamos para Cotegipe.
Eram nessas oportunidades, que podíamos conhecer mais claramente as duas faces da personalidade do cônego: uma austera, sisuda e de poucas palavras, que usava no seu dia a dia de trabalho, e a outra bastante alegre, extrovertida e brincalhona, quando na intimidade com amigos, longe dos seus tantos deveres. Como seu médico particular acompanhei o desenrolar da sua doença e o longo período de sofrimento que se seguiu, especialmente nos seus últimos anos de vida, sempre enfrentado com muito otimismo, coragem, fé e resignação. Lembro que quando retornou de Santa Maria, onde se submeteu a um grande tratamento, não se cansava de me dizer: “A gente não é ninguém longe da nossa casa”.
A figura do cônego Estanislau Pollon destaca-se como um verdadeiro líder e visionário que, além de suas responsabilidades religiosas, desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento e na transformação da vila de Floresta em Barão de Cotegipe. Seu legado vai além das construções materiais, abrangendo a promoção da educação, saúde e bem-estar social. A dualidade de sua personalidade, entre a seriedade no trabalho e a jovialidade na intimidade, demonstra a riqueza de suas contribuições para a comunidade. Este artigo destaca momentos marcantes que revelam não apenas sua liderança, mas também a conexão e amizade que cultivou com aqueles ao seu redor. O título "O Legado do Cônego Estanislau Pollon: Líder e Visionário em Barão de Cotegipe", ressalta a importância e a influência duradoura desse grande líder na história da região.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS











